3 porquês com Luana Cunha Ferreira
Luana Cunha Ferreira é Doutorada em Psicologia Clínica e especializa-se em Casal & Família, Intimidade e Sexualidade. Também é investigadora em áreas como a Conjugalidade, Parentalidade e intervenção comunitária. Enquanto Psicóloga do Humanário, respondeu a três grandes “porquês” que vão ao encontro de todos os temas em que trabalha diariamente.
Porque é que traímos?
A resposta curta é muito simples. Traímos porque queremos mais, porque queremos diferente. Não necessariamente alguém diferente. Traímos porque estamos fartos de quem nos tornamos na relação, porque não nos sentimos vivos, importantes, válidos, interessantes. Porque nos sentimos invisíveis e de repente alguém nos viu, e viu com olhos de ver e tudo abana e as cores do mundo voltam a ficar vivas. E então tantas vezes achamos que foi essa pessoa que voltou a dar cor ao planeta, mas nós é que mudamos de lentes. E convenhamos que mudar as lentes com alguém novo é bem fácil, mudar com um parceiro de 10 anos é que existe alguma competência em inovação relacional. E todxs chumbamos por faltas a essa aula na escola.
Mas é também importante falar da definição de traição. Em terapia, já tive casais que consideraram uma traição indelével quando o parceiro utilizou pornografia de forma individual, e outros onde o sexting com terceiros era até acolhido com agrado. Tudo depende do contrato implícito (felizmente, cada vez mais explícito) que o casal negoceia ao longo da relação — e que deve ser atualizado com frequência. Se a exclusividade sexual e emocional ainda é a norma, particularmente nos casais heterossexuais, é também importante perceber que provavelmente diferentes parceiros trazem expectativas diferentes para a relação no que concerne à exclusividade e às suas transgressões ou excepções.
Não partilho da opinião de que há sempre qualquer coisa de errado na relação para a pessoa trair. Aliás porque muitas das coisas que consideramos “erradas” ou “falhas” na relação são marcadores típicos de relações de longa duração, não quer dizer que as pessoas estejam a fazer alguma coisa de mal, representam de facto a norma (discrepância no desejo sexual, aborrecimento pontual, padrões pursuer-distancer, etc.) O melhor antídoto, para quem seja importante evitar a traição é trabalhar com tanto afinco para a intimidade profunda no casal como para a autonomia pessoal, possivelmente incluindo algumas transgressões negociadas (mesmo aquelas que só acontecem na nossa cabeça).
Porque é que existe trabalho invisível?
A desigualdade nas expectativas e na partilha efectiva de tarefas logísticas, familiares domésticas e do trabalho emocional é tão estrutural que se torna invisível. No meu trabalho com casais, sobretudo heterosexuais, utilizo muitas vezes a metáfora da “mesa inclinada”. Ao longe a mesa pode parecer direita, equilibrada entre ou dois, mas à medida que começamos a colocar pesos lá em cima (pagar a conta do gás, marcar o dentista, limpar a parte de trás do fogão, adormecer o mais novo, ligar ao tio, re-organizar o horário consoante a tele-escola, planear o jantar, renovar o seguro, etc) verificamos a que muitos começam a escorregar, rápida ou lentamente, para o lado da mulher. A certa altura fica muito pesado e o casal (que muitas vezes até tem já uma atitude igualitária ou feminista) decide reorganizar-se para ficar com os pesos distibuidos 50–50. O que com as tarefas até nem é muito difícil. Ao princípio. É que se não for a mulher a fazer força para que a mesa se endireite, rapidamente a mesa volta a ficar inclinada. Têm que colocar sempre lá o pé, a fazer força, sempre a empurrar um bocadinho, senão descamba outra vez, para o mesmo lado. E isto é com as tarefas e com a logística doméstica. Ainda estou para conhecer o casal heterosexual onde o trabalho emocional esteja minimamente igualitário (cuidar, afagar o ego, dar colo, antecipar e planear rotinas de forma a evitar birras, identificar e responder às necessidades emocionais, reparar conflitos, inovar na cama, entre tantos outros).
Porque é que a divisão de tarefas é realmente importante?
A literatura indica que a equidade é particularmente valorizada pelos casais do mesmo sexo, nomeadamente ao nível da partilha do poder e da divisão de tarefas e responsabilidades. Os resultados deste estudo sugerem que a equidade é valorizada no sentido de uma negociação e tomada de decisão considerada justa e equilibrada por ambos os parceiros, não no sentido de uma partilha literalmente 50–50 do poder e das responsabilidades.
Neste estudo (1) procurámos compreender como é que os papéis de género são experienciados e coconstruídos em casais do mesmo sexo. Ancorada no paradigma construcionista, a análise das experiências conjugais relatadas nas entrevistas, revelou fortes atitudes de questionamento e desconstrução das expetativas de género. Como o género não é um critério válido nestas famílias para a divisão de tarefas domésticas ou familiares, existe um distanciamento dos papéis de género tradicionais, possibilitando uma efetiva negociação das responsabilidades, tarefas e papéis que cada um assume na família, e a respetiva partilha do poder. Neste processo de negociação dos papéis familiares e do poder está patente um processo diádico de co-construção dos papéis de género.
O que é que se pode concluir ou retirar deste estudo? Qualquer casal, independentemente do género dos parceiros, negocia a dois os papéis de género, por vezes implicita e diariamente, na sua interação. O género não tem que ser um critério para a divisão de papéis e do poder no casal, já que existem outros critérios mais relevantes, para estas famílias, tais como a disponibilidade, interesse ou mestria, assim como e diferentes estratégias para negociar esta divisão de uma forma que seja percecionada por ambos como justa e equitativa.
No que diz respeito à conciliação trabalho-família, os resultados deste estudo indicam que, enquanto que nos casais do mesmo sexo sem filhos as responsabilidades profissionais parecem assumir maior importância que as familiares, nas famílias homoparentais as responsabilidades familiares assumem maior destaque, procurando ambos os parceiros adaptar as suas carreiras às responsabilidades acrescidas que a parentalidade acarreta. Isto parece contrastar com o que acontece nas famílias heteroafetivas, indicando a literatura que tendencialmente é atribuído ao homem maior responsabilidade no domínio profissional e à mulher maior responsabilidade no domínio familiar/doméstico. No entanto, independentemente da não heteronormatividade nesta amostra, foram ainda visíveis algumas normas presentes na socialização de género — por exemplo, foi interessante verificar que a contratualização de ajuda doméstica externa era a norma nos casais de homens e a excepção nos casais de mulheres.
Referências
(1) Estudo realizado por Miguel Francisco Filipe, Luana Cunha Ferreira e Jorge Gato, a ser publicado brevemente.