A memória que vem e que fica
Por Helena Bento
Pensando nos últimos mil anos, conseguem pensar nas 5 personalidades que considerem mais importantes para a história da humanidade? Escrevam ou listem mentalmente esses nomes.
Centrem-se agora apenas na história nacional. Quais os nomes que vos ocorrem como mais marcantes?
Se os nomes que se recordam tanto num contexto como noutro são maioritariamente masculinos, vão ao encontro do que se conclui em diversos estudos(1,2,3): As personalidades históricas recordadas são maioritariamente homens.
Diversos estudos conduzidos pela investigadora Rosa Cabecinhas entre 2006 e 2010, sumarizados no texto “Quem quer ser apagada?” publicado no livro Lígia Amâncio: o género como acção sobre o mundo, vão ao encontro desta conclusão, verificada igualmente em estudos nas Américas, Ásia, Europa e Oceania.
Num dos estudos, participaram 1106 estudantes universitários, homens e mulheres, em seis países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal e Timor-Leste. Foram colocadas diversas questões como: quais as personalidades mais importantes da história nos últimos mil anos, do mundo e da nação. Qual o nível de impacto dessas personalidades (positivo ou negativo).
As personalidades femininas recordadas correspondem a 4,7% do total. E as respostas dadas tanto por homens como mulheres, denotam dificuldade em recordar nomes de personalidades femininas.
Estes dados sugerem uma predominância das figuras masculinas na história. Uma memória histórica centrada no homem, ou seja, androcêntrica, e um apagamento das mulheres na história.
Mas que impacto tem recordar mais figuras masculinas que femininas no passado histórico?
Recordar massivamente e quase exclusivamente homens na esfera do passado demonstra que as memórias e visão que temos é predominantemente do impacto das ações dos homens, em detrimento dos feitos e ações das mulheres. Essa representação que existe em cada um de nós individualmente constrói uma visão unânime, denominada de memória colectiva.
O conceito de memória colectiva, fica mais claro ao pensarmos num acontecimento histórico (ex. o 11 de Setembro) e refletirmos que a forma como o representamos nas nossas mentes, influencia também a vivência e o olhar sobre o presente, bem como do futuro (4).
Cada um de nós terá a sua opinião e memória sobre acontecimentos passados, mas conjuntamente formamos uma opinião e uma “memória” sobre o tema, que se perpetua nas nossas mentes, nos jornais, nos livros, nas histórias que contamos a quem não viveu esse acontecimento, assim como os nomes que ficam na nossa memória. Esta memória colectiva influencia depois o futuro — aquilo que esperamos que aconteça e que é congruente com o que recordamos.
Da baixa percentagem de mulheres recordadas, é ainda importante salientar que as mulheres mais mencionadas na ótica mundial foram: a Madre Teresa de Calcutá, Diana de Gales e com algumas menções: Joana d’Arc, Margaret Thatcher e Marie Curie.
Na ótica nacional a mulher mais mencionada foi Amália Rodrigues e com algumas menções a Padeira de Aljubarrota, Rosa Mota e Manuela Ferreira Leite.
Numa segunda parte do estudo, quando questionadxs sobre a notória escassez de mulheres recordadas, foi enunciado que outrora existia uma prevalência masculina nos papéis e cargos, e que esta desigualdade é passado.
Mas será que esta desigualdade é mesmo uma coisa do passado? E, dada a importância da memória colectiva para o modo como vemos o futuro e o iremos recordar, será que uma memória colectiva centrada no masculino não ajudará a perpetuar as realidades (ou o que recordamos delas) do passado?
Será que chamar a atenção para a falta da presença de mulheres e das suas contribuições para a História mundial e nacional pode ser um primeiro passo para alterar a nossa memória colectiva e, consequentemente, o que esperamos que aconteça no futuro?
Deixamos uma reflexão sobre quanto desse passado carregamos ainda no presente Já agora, quantas mulheres recordaram inicialmente? Depois de ler este artigo, conseguem recordar mais mulheres?
Referências
Oliveira, J. M., & Nogueira, C. (2018). Lígia Amâncio: o género como ação sobre o mundo. In R. Cabecinhas (Ed). Quem quer ser apagada? Memória colectiva e assimetria simbólica (pp.111–132). CIS/IUL.
Liu, J. H., Goldstein-Hawes, R., Hilton, D. J., Huang, L. L., Gastardo-Conaco, C., Dresler-Hawke, E. (2005). Social representations of events and people in world history across twelve cultures. Journal of Cross Cultural Psychology, 36, 171–191.
Liu, J. H., Páez, D., Slawuta, P., Cabecinhas, R., Techio, E., Kokdemir, D. (2009). Representing world history in the 21st Century: The impact of 9–11, the Iraq War, and the nation-state on dynamics of collective remembering. Journal of Cross-Cultural Psychology, 40, 667–692.
Pennebaker, J. W., Páez, D., Deschamps, J. C., Rentfrow, J., Davis, M., Techio, E. M. (2006). The social psychology of history: Defining the most important events of world history. Psicología Política, 32, 15–32.
Liu, J. H., & Hilton, D. (2005). How the past weighs on the present: Towards a social psychology of histories. British Journal of Social Psychology, 44, 537–556.