Ter poder e não poder ter voz

Por Helena Bento

Em contexto organizacional, pessoas com mais poder (como por exemplo CEOs) discursam mais, comparativamente a elementos que têm menos poder. Isto é, maior estatuto relaciona-se com mais tempo de antena. (*1).

Se adicionarmos à equação o facto de se ser homem ou mulher, algo difere.

Um estudo publicado em 2011 na revista científica Administrative Science Quarterly, traz uma perspetiva sobre a quantidade de tempo de discurso, poder e género.

A investigação desenvolvida por Victoria Brescoll, analisou este tema em 3 estudos.

No primeiro estudo, a investigadora analisou as gravações de 2005 e 2007 do Senado Americano, contabilizou o tempo de discurso de senadorxs e apurou o grau de poder reconhecido a cada pessoa. Os dados revelaram uma relação entre poder e tempo de discurso, ou seja, senadorxs reconhecidos com maior grau de poder falavam/discursavam mais tempo. Porém quando os géneros são comparados, surgem diferenças. Os senadores homens com mais poder falavam mais, e os senadores com menor poder falavam menos. Nas senadoras, não se encontraram diferenças, logo o factor “poder” não influenciou o tempo de discurso nas mulheres.

Além desta análise em contexto real, foi conduzido outro estudo em contexto manipulado, mas com a mesma finalidade. Várixs participantes cumpriram tarefas de grupo onde ocupavam diferentes papéis com mais e menos poder/influência. Os resultados encontrados foram equiparados aos que se apuraram em contexto real.

Percebeu-se assim que as mulheres em posição de maior poder tendem a falar tanto quanto as mulheres em posição de menor poder. O que poderá então ser justificação para estas diferenças entre homens e mulheres em cargos de poder?

Será que as mulheres em posição de maior poder receavam ser julgadas, e sofrerem repercussões por falarem demais?

O terceiro estudo constatou que as mulheres temiam ser avaliadas negativamente por falar “em demasia”. As mulheres em posição de poder que falavam mais foram avaliadas como menos competentes e menos aptas como líderes, comparativamente aos homens que falavam na mesma quantidade. Também se concluiu que as mulheres em posições de poder que falavam menos, eram vistas como igualmente competentes e aptas para liderar como os homens que falavam mais. Já os homens em posição de poder que falavam menos, foram avaliados como menos competentes e menos aptos como líderes.

No filme Long Shot, a personagem protagonizada por Charlize Theron, revê os seus discursos como candidata à presidência dos EUA e diz: “Se surgir zangada, sou histérica. Se for emocional sou fraca. Se levantar o tom de voz, sou uma cabra. Não é fácil”.

Esta deixa cinematográfica vai também ao encontro de uma conclusão destes estudos — Estar numa posição de poder condiciona os nossos comportamentos.

Mais importante, numa altura em que os direitos para a igualdade de género são ainda um tema emergente, é urgente assumir que quando os comportamentos são ajustados por temor de represálias ou de receio de julgamento, a liberdade e igualdade não estão ainda estabelecidas.


Referências

Brescoll, V. L. (2011). Who Takes the Floor and Why: Gender, Power, and Volubility in Organizations. Administrative Science Quarterly, 56(4), 622–641. https://doi.org/10.1177/0001839212439994

James, D., & J. DrakitTerch (1993) ‘‘Understanding gender differences in amount of talk: A critical review of research.’’ In D. Tannen (ed.), Gender and Conversational Interaction: 281–317. New York: Oxford University Press.

Carlos Costa